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MILHARES TOMAM AS RUAS NO DIA NACIONAL DE PARALISAÇÃO

Milhares de trabalhadores e trabalhadoras, representantes dos mais variados movimentos sociais e populares, se reuniram, no final da tarde de quinta-feira (22) para um grande ato do Dia Nacional de Paralização Rumo à Greve Geral.

A manifestação, que contou com a presença dos militantes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – Rio de Janeiro, e foi organizado pela Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo.

A atividade percorreu ruas do centro e teve como eixo unitário a defesa dos direitos dos trabalhadores, a luta contra a reforma da previdência, o repúdio à MP do Ensino Médio e a exigência do “Fora Temer” pelo fim imediato do governo golpista e restituição da democracia.

Após a caminhada, que culminou na ALERJ, jovens e trabalhadores fizeram um ato político para encerrar a atividade.

por José Roberto Medeiros (JP 34776 MTE-RJ) Postado em Uncategorized
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Apesar dos desafios, o Rio de Janeiro continua lindo

Neste 1º de março a cidade do Rio de Janeiro completa seus 450 anos de existência em uma história marcada por momentos grandiosos, mas ainda com grandes de desafios pela frente. Motivos para comemorar existem, apesar de todos os problemas do dia a dia: o Rio de Janeiro cada vez mais está presente no cenário internacional e tem os olhos do mundo voltados para cá. Graças ao cenário esportivo, fomos o palco da final da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e seremos a cidade-sede das Olimpíadas de 2016, festivais como o Rock in Rio e grandes inaugurações como o Parque Madureira (que ganhará um balneário e uma pista de esqui) chamam a atenção do mundo pela grande transformação que acarretam na vida da cidade. No entanto, nem tudo são flores e existem muitos motivos para ficarmos preocupados com os rumos da nossa cidade que, mesmo com todos os problemas que possui, continua maravilhosa.

O Rio de Janeiro é uma cidade com belezas naturais difíceis de serem descritas com simples adjetivos. Suas riquezas naturais são o seu principal cartão postal, motivo de orgulho para os moradores e uma atração a mais para os turistas que a visitam mas, às vésperas dos Jogos Olímpicos que farão o mundo inteiro virar os olhos para cá, temos que ficar alertas para os nossos problemas pois nem tudo são flores na cidade maravilhosa.

O fracasso do programa de despoluição da Lagoa Rodrigo de Freitas e da Baía de Guanabara (que não ficarão totalmente limpas para 2016 como prometido) demonstram claramente que continuamos cuidando pouco dos tesouros naturais da cidade maravilhosa. As autoridades precisam ser mais responsáveis para cuidar das belezas naturais da cidade. As favelas devem ser contidas e não continuarem a avançar nas encostas verdes e, além de se fazer um eficaz programa de despoluição da Lagoa e da Baía de Guanabara, é necessário rever a questão dos canais da rede de esgotos da cidade. Saneamento básico em todas as periferias e comunidades é um desafio que a cidade maravilhosa tem que vencer para ser maravilhosa para todos e não apenas para alguns.

Outro fator a ser consideravelmente melhorado no Rio de Janeiro é a questão da segurança pública. Não que o “diabo seja tão feio quanto se pinte”. Como morador da cidade, considero que a imagem que moradores de outros estados têm do Rio de Janeiro no que tange à essa questão é um pouco exagerada, mas também como morador devo admitir que o carioca não se sente seguro. As UPPs são uma medida limitada, que começa a se esgotar e está completamente longe de ser a solução do problema. O Estado não pode se fazer presente nas comunidades apenas com a força policial. Ele tem que se fazer presente com políticas públicas que diminuam os índices de criminalidade, que afastem a juventude do tráfico e minimizem a ação do mesmo. O Estado não tem que subir a favela com o caveirão e com uma política opressora, mas com saúde, educação, geração de emprego e construção da cidadania de todos e todas que vivem em comunidades na nossa cidade. Nossa polícia, assim como as demais, é despreparada para lidar com o cidadão e a desmilitarização é um gargalo urgente para que não apenas o Rio, mas todo o País, possa avançar na questão da segurança pública.

A saúde é outra área que precisa de melhorias no nosso Rio. Os hospitais públicos, independente da esfera administrativa, encontram-se com sérios problemas. Emergências lotadas, demora no atendimento, e tudo que o carioca já está cansado de conhecer. É necessário equipar melhor os nossos hospitais, contratar mais médicos e investir pesado para aumentar a rede hospitalar da cidade, dando atendimento digno à população. A construção das UPAs não resolve o problema do atendimento clínico e, por vezes, a falta de médicos nas mesmas é uma dor de cabeça ao cidadão que procura atendimento de emergência.

A educação é uma outra área que deixa a desejar no Rio de Janeiro. Tanto a rede municipal quanto a rede estadual de ensino possuem sérios problemas que precisam ser sanados. O professor deve ser valorizado e a rede precisa ser modernizada e mais atrativa para os jovens cariocas. A escola não deve ser apenas um local onde os jovens vão assistir suas aulas, elas devem se constituir como um segundo lar para os mesmos, com atividades extracurriculares como prática desportiva, oficinas artísticas, dentre outras ações que transformem as escolas em verdadeiros polos culturais, atraindo para si a população no entorno da mesma, gerando um atrativo a mais para a juventude carioca. Integrar a escola à comunidade que a cerca é um passo para uma nova lógica de educação: acolhedora e transformadora. A última greve da educação mostrou para a cidade e para o Brasil inteiro a necessidade de mudança de lógica nas redes municipal e estadual. Já passou da hora da sociedade abraçar os educadores e avançar nessa luta que é essencial para o futuro da nossa juventude.

A rede de transportes, por sua vez, sempre foi um grande problema da cidade do Rio de Janeiro. As ruas, em geral, não acompanharam o crescimento da cidade e os engarrafamentos, segundo pesquisas, já superam os de São Paulo, causando transtornos à sociedade carioca e fazendo o carioca ser aquele que mais perde tempo no trajeto entre sua casa e o local de trabalho. O Bilhete Único e os BRTs foram avanços, mas nossa rede de transporte rodoviário precisa de melhoras com urgência. É um absurdo a situação em que se encontram os ônibus do Rio de Janeiro, principalmente aqueles que vão para a Zona Oeste da cidade. Os transportes sobre trilhos também carecem de fiscalização e melhorias. A Supervia coleciona problemas e possui uma legião de insatisfeitos e o Metrô-Rio conseguiu ter uma queda absurda na qualidade do serviço prestado, tendo seu projeto original modificado e não conseguindo chegar perto de atender a demanda da cidade. Os valores das passagens são outro grande problema. Temos uma das passagens mais caras do País e seguimos investindo na expansão rodoviária através dos projetos dos BRTs em detrimento do transporte de massa sobre trilhos que apesar da necessidade de ser modernizado é o futuro para acompanhar o crescimento da cidade. Uma verdadeira investigação do cartel do transporte público é mais do que necessário para desmontar essa máfia que lucra milhões e presta um serviço porco ao cidadão que constrói essa cidade no dia a dia.

Enfim, neste 1º de março a Cidade Maravilhosa completa seus 450 anos de existência. 450 anos de um povo que apesar de todos os problemas consegue fazer festa a todo momento, povo que canta, que sorri e que apesar de todos os pesares é um povo apaixonado pela cidade e que faz dela digna da alcunha de maravilhosa. Muitos são os desafios pela frente e inúmeros os problemas que o cidadão enfrenta, mas com tudo que já foi exposto aqui, com tudo que sabemos que tem que melhorar nessa cidade, temos que admitir, com a força do povo carioca e de belezas naturais que superam os maus tratos oriundos de uma política danosa e autoritária implementada pelo PMDB, o Rio de Janeiro continua lindo…

Dilma, Marina, Gays e Religiões

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A temática LGBT ganhou destaque nas eleições de 2014 quando, após exigência pública do Pastor Silas Malafaia, a candidata Marina Silva (Rede/PSB) retirou de seu programa de governo os pontos relativos ao casamento igualitário e a criminalização da homofobia. A atitude gerou revolta na comunidade LGBT e fez com que representantes do segmento se manifestassem. Um dos mais contundentes, o Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), afirmou que Marina “brincou com a esperança de milhões de pessoas” e que “não merece a confiança do povo”.

Depois de, como bem disse Wyllys, ter “rasgado seu programa de governo mesmo antes de assumir”, a única candidata da história com dupla filiação partidária (tá no PSB, mas na verdade é da Rede Sustentabilidade) tentou minimizar o fato reduzindo-o a um simples erro de diagramação. Só faltou colocar a culpa no estagiário! A manobra, no entanto, não deu certo e é provável que a candidata perca votos no segmento após o recuo que mais uma vez mostrou sua forte ligação com setores fundamentalistas da sociedade. O mal-estar no comitê de campanha da candidata é tamanho que o coordenador do núcleo LGBT da Campanha de Marina Silva abandonou o barco e, como se não bastasse ter ao seu lado Malafaia, outro inimigo da população LGBT também acenou apoio à candidatura de Marina: o Deputado Federal Pastor Marco Feliciano (PSC) que, segundo informações que circulam pelas redes sociais, teria inclusive sugerido ao candidato do seu partido, Pastor Everaldo (PSC) que renunciasse e apoiasse a candidatura de Marina já no primeiro turno.

A história poderia ser encerrada aí, mas não foi. Depois do debate entre os candidatos à presidência realizado pelo SBT e pela Folha de São Paulo na última segunda-feira, Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT, defendeu abertamente a criminalização da homofobia e deixou claro que o tema ainda seria debatido na campanha. Nas palavras de Dilma, a homofobia “não é algo com o que possamos conviver”.

A criminalização da homofobia é uma bandeira que também é levantada pelo Partido dos Trabalhadores, mas verdade seja dita ainda não havia sido encampada pelo Governo Federal. Apesar de parlamentares da base aliada como a Deputada Federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), a Deputada Federal Erika Kokay (PT) e a ex-Ministra Maria do Rosário (PT-RS) empunharem essa bandeira, o governo, até por seu amplo arco de alianças, nunca tratou o tema com a devida prioridade mas, dado os rumos da campanha, é provável que essa seja uma das linhas prioritárias do próximo governo Dilma (caso reeleita) na área de direitos humanos.

Tais caminhos poderiam apontar para uma saída à esquerda do PT no enfrentamento com a mistura de neoliberalismo com fundamentalismo que representa a campanha de Marina Silva, mas não podemos ser levianos em taxar que sim. Em um país com mais de 20 milhões de eleitores evangélicos, ignorar o segmento seria flertar com uma derrota eleitoral. O choque com esse segmento conservador é duro para as forças progressistas. Enquanto o segmento LGBT elegeu um deputado federal assumidamente gay pela primeira vez em 2010 (Jean Wyllys), a “bancada da bíblia” conta com 14% dos deputados da Câmara Federal e 5% dos Senadores. Talvez tenha sido pensando nisso que, logo após assumir o compromisso com a criminalização da homofobia, Dilma tenha acenado aos fundamentalistas com o apoio do governo à Lei das Religiões.

Consideramos que a Lei das Religiões consiste em um atentado grave ao Estado Laico, mas também não podemos negar que a mesma tem um caráter republicando ao estender a outras religiões os mesmos benefícios que a Igreja Católica mantém como seu monopólio no Estado Brasileiro. Acreditamos que nenhuma instituição religiosa deveria receber incentivos fiscais ou outras benesses do poder público, no entanto, se estas existam que sejam para todos. E quando falamos todos não são apenas católicos e evangélicos! Se é para ser republicano com esse benefício que fere a laicidade do Estado, que ele se estenda também às religiões de matriz africana, que sofrem muita perseguição até hoje.

Em suma, Dilma assumiu um compromisso com a população LGBT e tentou um afago nos líderes evangélicos para não perder apoio no setor. Perder apoio no setor, ainda mais em uma eleição tão disputada, pode significar a derrota do projeto petista. Se a manobra de tentar agradar gregos e troianos vai dar certo, não sabemos, mas com certeza o impacto negativo é infinitamente menor do que o recuo de Marina Silva depois do puxão de orelhas de Silas Malafaia.

A Era da Cara de Pau

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Aliança entre Aécio, Pezão e César Maia merece destaque na “Era da Cara de Pau”

Se o historiador marxista Erick J. Hobsbawn fosse vivo e morasse no Rio de Janeiro teria inspiração para escrever mais um livro. Uma nova era é inaugurada em solo brasileiro e com especial ênfase no Rio de Janeiro: a Era da Cara de Pau, período marcado pela profunda falta de vergonha nas mais diversas áreas: da política ao esporte, passando, é claro, pelos principais veículos de comunicação do país. É tempo de inverdades sem nem a preocupação de passar alguma verossimilhança no que se diz. O critério não existe, vale tudo porque vergonha na cara é produto em falta no mercado.

A “Era da Cara de Pau” pode ser notada, por exemplo, quando o candidato tucano à Presidência da República, o Senador Aécio Neves (PSDB-MG), que coloca a “transparência” e a “gestão” como seus carros chefes, não consegue dar uma explicação minimamente satisfatória para o uso de dinheiro público para a construção de um Aeroporto em terreno de sua família. O senador alega que as terras foram desapropriadas e não eram mais privadas, pertenciam ao Estado. No entanto, segundo reportagens, a chave do portão do aeroporto ficaria com a família e seria necessário pedir autorização a um primo de Aécio para utilizar o local.

Como se não bastassem todas essas informações, já foi revelado que a construtora do aeroporto é uma das doadoras de campanha do tucano e que mesmo ainda não regularizado foi batizado com o nome de um tio-avô do senador mineiro. Como grande representante da “Era da Cara de Pau”, além de construir com dinheiro público um aeroporto no terreno de um tio, batizar com o nome de outro e receber doações da construtora para sua campanha, Aécio (que já tinha tido a cara de pau de dizer que FHC fez um governo de esquerda), ainda ataca o governo federal reclamando da demora da legalização do Aeroporto. Assim como a Zuera, a cara de pau não tem limites.

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Flávio Itabaiana, ícone da Era da Cara de Pau

O Judiciário também não podia ficar de fora da “Era da Cara de Pau”. No melhor estilo “Minority Report”, os juízes e o Ministério Público (aquele mesmo que os coxinhas foram pra Rua para defender ante o cerceamento do poder de investigação pela PEC 37), com leitura hiperdinâmica de processos de mais de 2 mil páginas e com precogs (videntes) de plantão para prever o futuro rasgam a constituição e começam uma série de prisões preventivas, transformando o direito de manifestação em crime. Acham que a cara de pau para por aí? Ledo engano! Não contente com as prisões preventivas, instituições como o IDDH (Instituto de Defesa dos Direitos Humanos) tiveram seus telefones grampeados, advogados não puderam acessar ao processo que incrivelmente caiu nas mãos da imprensa (mais da Rede Globo, especificamente)! Acabou?! Evidente que não! Com a revolta da sociedade civil, movimentos sociais e organizações de esquerda o Globo começa a endossar o discurso autoritário e busca criminalizar os sindicatos no meio desse bolo acusando-os de participar de manifestações (descobriram a pólvora!) ao passo que o Juiz Flávio Itabaiana, após colocar o Rio de Janeiro num estado de excessão, esbraveja contra a ação ajuizada pela Deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) e outros parlamentares contra a ação por ele promovida. Na certa, o Juiz também é um representante da “Era da Cara de Pau” e ignora o direito de todo cidadão brasileiro de acionar o Conselho Nacional de Justiça…

No esporte podemos notar também a presença da “Era da Cara de Pau”. Mais especificamente no futebol brasileiro. Depois da surra de 7 a 1 para a Alemanha e de todo clamor por mudanças, a CBF, entidade privada que pouco se importa com a opinião do povo sobre a Seleção Brasileira (que deveria ser um patrimônio nacional), traz de volta a Era Dunga e coloca um ex-agente (que supostamente encerrou suas tarefas de agente 24hs antes) para assumir o controle sobre as seleções da CBF. Em suma, o mesmo cara que quando foi diretor de Futebol do Flamengo negociou Adriano e Reinaldo em troca de Vampeta e saiu como agente do Imperador depois que largou o cargo agora irá comandar a “reformulação” do nosso futebol. É muita cara de pau, colocaram a raposa para cuidar do galinheiro e o bom funcionário para sentar à beira do campo.

Ainda no futebol, a “Era da Cara de Pau” também pode ser notada nos clubes. Mais especificamente no de maior torcida do País. No dia seguinte ao qual o jogador André Santos foi agredido por torcedores, o mesmo anuncia que o clube rescindiu seu contrato. Além de leviana, a atitude coloca em risco todo o staff da equipe e, após vazar pra imprensa, foi negada primeiro pelo Diretor de Futebol Felipe Ximenes e depois pelo próprio Presidente do clube que além de assegurar a não-rescisão, em entrevista ao Bate-Bola da ESPN, rasgou elogios ao trabalho do então técnico Ney Franco.

Regra básica da “Era da Cara de Pau”, o que se fala não se escreve. Não se sabe por qual motivo Bandeira de Mello se expôs dessa forma, mas o fato é que menos de 24 horas depois o técnico do qual o presidente se dizia um “fã do trabalho desde que ele chegou ao flamengo” por ele estar desenvolvendo “o melhor trabalho possível” demitira Ney Franco e trouxera Luxemburgo para ocupar o cargo. A rescisão de André Santos é negociada junto ao Departamento Jurídico. E o nome de Elano também figura como possível integrante da barca. A diretoria nega, mas como acreditar em qualquer declaração vivendo na “Era da Cara de Pau”?

Resistir e Derrotar o Terrorismo de Estado!

Foto: Bruno Bou Haya

Foto: Bruno Bou Haya

Mais uma vez as ruas do Rio de Janeiro foram tomadas por milhares de pessoas em defesa da educação e contra a violência policial. A imprensa diz 20 mil, os organizadores falam em pelo menos 50 mil, e quem estava lá vivendo a emoção de lutar por mais direito teve a impressão de que eram muito mais. A passeata, organizada pelo Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (SEPE) foi um grande sucesso e mostrou mais uma vez que a população carioca abraça seus professores na luta por uma educação de qualidade porém, após o término oficial da atividade do SEPE, novamente nossas ruas ganharam o intragável aroma de pimenta e o desagradável ruído das bombas e tiros que marcaram mais um confronto entre a Polícia Militar e grupos de manifestantes.

Se foi um manifestante que atirou o primeiro molotov, se foi a PM que avançou de forma covarde ou se foram P2 infiltrados que agiram para desencadear o conflito pouco importa. Chegamos a um estado de esgotamento total das relações entre a sociedade civil e o Estado repressor. A tática do “Terrorismo de Estado” segue sendo praticada como forma de manter o poder e evoluiu para um nível ainda mais assassino de terrorismo: o uso de armas letais contra o povo que paga pelas balas que contra eles são usadas.

O Governador Sérgio Cabral (PMDB) não tem mais controle algum sobre o Estado e sua polícia atua de forma violenta para manter o poder nas mãos de quem está. A Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) e a Câmara Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, com raríssimas exceções, fecha os olhos, rompendo o contrato social que permite sua existência e não agindo em prol do povo, como em teoria, deveria fazer.

Como condenar ações hostis a essas casas, que um dia foram chamadas de casa do povo e hoje se silencia legitimando o massacre do aparato repressor do Estado sobre estes? Como condenar àqueles que agem de forma mais  incisiva quando o Estado vira as costas para a voz que vem das ruas? Como recriminar manifestantes que lutam com paus e pedras contra armas químicas e letais?  Como não ser contra uma ação terrorista do Estado que avança com seu braço armado contra manifestantes, jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas?

Não nos sentimos aptos para fazer qualquer juízo de valor de quem começou o que até porque as versões são muitas e é difícil definir com exatidão os fatos que desencadeiam os conflitos. O fato é que eles acontecem e que a desproporcionalidade da força usada pela polícia aumenta cada vez mais. Qual será o limite do uso da força pela PM? Será a morte de algum cidadão?  Um baleado já tivemos no ato de ontem…

A situação torna-se cada vez mais preocupante. A Ministra dos Direitos Humanos do Governo Federal, se cala. As secretarias estadual e municipal ligadas ao tema, idem. A imprensa burguesa ao mesmo tempo que não tem como simplesmente ignorar que o braço armado do Estado está sendo usado para manutenção de poder político, tenta mostrar de uma forma que criminalize (como sempre) os movimentos sociais e populares. Que perspectivas temos?

O Estado, cada vez mais, perde sua legitimidade. Não como instituição, mas por ação direta dos seus governantes. Gritos de mais saúde e mais educação, são na prática, um grito por uma maior atuação do Estado! No entanto, a resposta que o Estado tem dado a esses gritos é uma atuação cada vez mais agressiva.

A casa do povo ignorou o povo e aprovou um PCCR que a justiça já derrubou em mais de uma instância., dando mais legitimidade ainda à luta dos professores que conta com imenso apoio popular. A ALERJ, seguindo o exemplo da casa municipal, mantém seus olhos fechados  a todas as atrocidades e desmandos que ocorrem no Rio de Janeiro e blinda o governador como se nada acontecesse. Nessa conjuntura, o que podemos fazer? Sinceramente, não sei. Continuar nas ruas é a única opção e agora, além de nos preocuparmos com nossa integridade física e daqueles que nos cercam e lutam ao nossos lado, teremos também que nos preocupar em sair vivos do exercício da nossa cidadania.

Polícia Militar, ALERJ, Câmara de Vereadores, PMDB, Eduardo Paes, Sérgio Cabral, Governo do Estado, Governo Municipal. Muitos nomes, algumas siglas, mas um mesmo sentido: Terroristas e Assassinos, não como em 1964, pois dessa vez fomos nós (povo) que colocamos nossos algozes no poder. E seremos nós que, unidos, teremos forças para tirá-los de lá.

Resistir é preciso! Permanecer nas ruas, uma necessidade! Combater e derrotar aqueles que tentam usar das armas para calar as vozes que ecoam das ruas, nossa missão!

Black Blocs: as ideias por detrás das máscaras

Black Blocs 3Um dos fenômenos mais discutidos sobre as mobilizações de junho é o aparecimento do grupo Black Bloc. Vestido de preto, usando máscaras ou panos para esconder o rosto, o grupo tomou a linha de frente das manifestações e tem sido relacionado por segmentos da imprensa como vândalos, baderneiros e responsáveis pelos confrontos com a Polícia Militar. De acordo com a mídia, as máscaras seriam para esconder o rosto para a prática da desordem, mas será que é isso mesmo?

Tradicionalmente a imprensa tende a criminalizar os movimentos que contestam o sistema, foi assim com os movimentos anarquistas do começo do século XX, foi assim com os comunistas na Era Vargas e durante a Ditadura Militar. Porque pensar que agora seria diferente? Entramos em contato com alguns membros do grupo conhecido como Black Blocs e  tentamos compreender um pouco mais desse novo elemento que passa a fazer parte do cenário político fluminense.

Manifestante Black Bloc no Rio de Janeiro. (Foto: Bruno Bou Haya)

Manifestante Black Bloc no Rio de Janeiro.
(Foto: Bruno Bou Haya)

As roupas pretas não são apenas para dificultar a identificação, como tenta induzir a televisão, ela tem o simbolismo de união, solidariedade e comprometimento com a causa. Black Blocs existem em várias partes do mundo. Sua atuação no Egito e na Grécia tem chamado atenção e, sua manifestação no Brasil deixou muitos confusos. A ideologia que seguem é o anarquismo. Se organizam de forma horizontal, não apontam líderes. A faixa etária predominante varia entre os 18 e 26 anos, caracterizando como um grupo essencialmente jovem. A maioria são homens, mas mulheres também se fazem presentes. O grupo iniciou sua atuação no Rio de Janeiro durante as primeiras passeatas de Junho e, de lá para cá, segundo seus membros, só tem crescido :

– O grupo já existia no Brasil há algum tempo. Nós, entretanto, começamos nossa atuação no Rio de Janeiro nas primeiras passeatas. Num primeiro momento, éramos bem poucos, pois ninguém nos conhecia, agora nossa realidade é outra – Diz um membro do grupo.

Eles se reivindicam como anarquistas e se referenciam na primeira aparição dos Black Blocs em Seatle (1970), não se envolvem com partidos, mas também não os tomam como seus inimigos principais. Suas bandeiras envolvem fim de opressões, autoritarismo e deixam claro que seus inimigos não são os partidos políticos, como se ventila por aí, mas sim todas organizações que promovem a opressão do homem pelo homem:

– Nós somos contra qualquer autoritarismo. Temos como inimigos aqueles que se colocam acima dos outros, não aceitamos que ninguém tenha poder sobre ninguém. Acreditamos na solidariedade, liberdade e justiça. Queremos a democracia direta, com organização e sem autoridade. Nossos inimigos são os que humilham, os que não respeitam o próximo, os que tiram a igualdade e impõem sobre a população o que acham certo. Nós lutamos contra tudo o que reprime, tudo o que nos aprisiona. Reinvidicamos o direito da sociedade e damos voz e apoio ao povo. – diz um membro dos Black Blocs.

Os alvos principais do grupo são grandes empresas que, na visão dos Black Blocs promoveriam a desigualdade social, o preconceito e outros valores que o grupo atribui ao sistema capitalista:

– Nossos alvos em geral são multinacionais e adjacências. Acreditamos que essas empresas provoquem a infeliz separação de classes, evidenciem o preconceito e elevem a falta de respeito entre as pessoas.

Criminalizados pela mídia e até por setores da esquerda, os Black Blocs vem enfrentando sensações diferentes ao longo desse processo de mobilizações que vive o Rio de Janeiro. Se por um lado a PM os elege como inimigos e alguns partidos os acusam de começar confrontos e implodir os atos; por outros muitos militantes independentes entoam gritos de apoio ao grupo nos atos, colocando-os como protetores dos manifestantes.  Eles rebatem as acusações de que começaram os confrontos com os partidos. De acordo com eles, os confrontos da passeata dos 100 mil, na Rio Branco, com os militantes do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU) começaram por conta que estes teriam iniciado o atrito com eles. E afirmam que não tem nada a ver com o ataque aos Partidos ocorrido na manifestação que reuniu 1 milhão de pessoas na Presidente Vargas:

– Esse confronto não teve nada a ver conosco. Não havia nenhum Black Bloc nesse dia. – Afirma uma das moderadoras da página do grupo na internet.

O grupo também desmente a acusação de que teria levado coquetéis molotovs para a passeata do dia 11, onde uma caixa cheia de molotovs foi supostamente encontrada e entregue à Polícia:

– O Black Bloc foi para a linha de frente proteger os manifestantes da polícia. Não usamos Molotov, quem dirá uma caixa desses artefatos caseiros , afinal, nunca que algo daquele tamanho caberia em uma mochila de costas. Temos certeza que implantaram aqueles Molotovs para nos incriminar e conseguir algo para nos difamar. – Diz um militante do grupo.

Black Blocs em ação em ato durante a Copa das Confederações. (Foto: Bruno Bou Haya)

Black Blocs em ação em ato durante a Copa das Confederações.
(Foto: Bruno Bou Haya)

Eles criticam a atuação dos partidos que, na visão deles, foram hostis ao grupo na passeata chegando à prática, condenada pelos Black Blocs, da contratação de seguranças que tinham eles como alvos de contenção:

– Não fomos bem recebidos pelos partidos na passeata do dia 11 de julho. De acordo com depoimentos, eles contrataram até seguranças para nos conter. Fomos agredidos. Mas não estamos generalizando, tivemos o prazer de em alguns momentos durante a manifestação caminhar entre eles e nada acontecer.

O grupo, que é alvo de investigação dos serviços de inteligência da Polícia, admite que existe infiltração de agentes externos em seu meio. Não descartam a possibilidade de que sejam Policiais disfarçados, mas garante que estão desenvolvendo um método interno de avaliação e filtração para que isso não continue a acontecer. Eles alegam que não usam da violência como arma e sim que apenas se defendem – e defendem os manifestantes – dos ataques da polícia. Condenam os roubos e chegaram inclusive a manifestar através das redes sociais essa posição, mas não criminalizam a quebra de sedes de empresas e repartições públicas.

Polêmicos, os Black Blocs ganharam as páginas de jornal de todo o país com uma visão extremamente distorcida e estereotipada pela grande mídia. O grupo se defende das acusações de que incitaria atos de violência e expõe sua ideologia, pregando unidade das forças que lutam contra o sistema independente das diferenças ideológicas:

– Acreditamos que cada um tem o direito de escolher o que quer ser, no que acreditar e pelo que lutar. Não aprovamos o preconceito. Cada um nasceu do jeito que é, branco, negro, hétero, homossexual, homem, mulher… Cada um tem seu propósito no mundo e não cabe a ninguém julgar. Igualdade e justiça, é nisso que acreditamos e é isso que apoiamos. Todos estão lutando pelo que acham certo, só estamos fazendo o mesmo e tentando assim, dar mais voz, mais expressão aos movimentos. Somos anarquistas, mas isso não nos torna vândalos ou pregadores da violência. Respondemos aos ataques da polícia, apenas. Não queremos ninguém ferido, queremos proteger, mesmo que às vezes algo saia errado. Queremos ajudar e acreditamos que toda ajuda é válida, mesmo com ideologias diferentes. A união faz a força e nesse momento, a força é o povo, sem distinção de ideologia.

Ao contrário do que apresenta a grande imprensa, ao invés de um grupo de “vândalos” e “baderneiros”, os Black Blocs se apresentam como um grupo anticapitalista que se presta ao papel, inclusive, de defender os manifestantes da opressão policial. A mídia, por má fé ou falta de qualidade na apuração jornalística, parece ainda não ter entendido isso, mas parte das ruas parece já ter compreendido senão o grito de “não tem PM, não tem Choque, mas tem os Black Blocs” não seria entoado com tanta força como foi na última manifestação.

O Pós-Cabral

Paes, Eike, Cabral e Pezão, símbolos de uma política contestada pelas Ruas pelo povo do Rio de Janeiro.

Paes, Eike, Cabral e Pezão, símbolos de uma política contestada pelas Ruas pelo povo do RJ.

Se algum consenso pode ser tirado dessa série de manifestações é o de que quem mais se prejudicou com ela foi o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB). Após 7 anos de governo, o grito de “Fora Cabral” pouco a pouco começa a se espalhar pela cidade e sair apenas do eixo das manifestações. Nas bancas de jornal, nos pontos de ônibus, nas mesas de bar e até mesmo em um grito de expectadores de um ensaio de um bloco de carnaval o “Fora Cabral” ecoa, o que demonstra o esgotamento de um modelo político que há anos governa o Rio de Janeiro.

Sérgio Cabral não inventou quase nada de novo. Isso é a primeira coisa a se tornar evidente para que compreendamos a limitação que representa a bandeira do impeachment. O peemedebista representa a continuação não de uma ideologia política, mas de um modo de se governar o Estado presente desde a gestão do tucano Marcelo Alencar (PSDB), entre 1995 e 1999, que em seu governo sempre demonstrou pouco apreço pela coisa pública privatizando uma série de empresas estatais como a CERJ (Companhia de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro), BANERJ (Banco do Estado do Rio de Janeiro), CONERJ, TELERJ, CEG (Companhia Estadual de Gás), Flumitrens e o próprio Metrô.

Alencar foi sucedido por Garotinho (e em seguida por Rosinha) que, se por um lado romperam com o aprofundamento do neoliberalismo do PSDB e começaram a implementar projetos sociais no Governo do Estado, também usou da máquina pública para consolidar sua hegemonia. É impossível falar da gestão Garotinho-Rosinha sem lembrar da chamada Turma do Chuvisco (assessores que acompanhavam o governador desde Campos, sua cidade natal e base política), que foi acusada de favorecer empresas em concorrências públicas e firmar contratos sem licitação. Mesmo com o rompimento do neoliberalismo, as práticas de pouco respeito com o que é público e com a própria população fluminense seguiram no governo do casal de campos que acabou colocando Garotinho na mira da Polícia Federal, sendo indiciado por quadrilha armada, sob a suspeita de ter usado seu período no Palácio Guanabara (e também o de sua mulher, Rosinha) para acobertar as ações de um grupo de policiais que, encastelados na chefia da Polícia Civil, barbarizou o Rio de Janeiro cometendo ilícitos variados. A lista inclui facilitação de contrabando, formação de quadrilha, proteção a contraventores, cobrança para nomeação de delegados, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva.

Com o apoio de Anthony Garotinho e sua esposa, Sérgio Cabral se elegeu governador e as práticas tanto de Marcelo Alencar (PSDB), quanto do casal Garotinho (que se elegeu pelo PSB e depois foi para o PMDB) foram mantidas. O patrulhamento comunitário, GPAE, ganhou outro nome (UPP) e um projeto de Marketing. UPAs passaram uma falsa ideia de avanço na saúde e acobertaram o fechamento de hospitais. A educação seguiu agonizando com mais um fracasso de projeto educacional e, mostrando que aprendeu bem com o casal de Campos, sua polícia virou uma máquina de guerra que virou a base de sustentação de sua hegemonia e não à toa as UPPs são o carro chefe da comunicação do Palácio Guanabara.  De Marcelo Alencar, Cabral herdou a promiscuidade com o setor privado e as relações com empresários como Eike Batista marcaram seu governo que transformou o Rio de Janeiro em um balcão de negócios.

Uma hora esses modelos haviam de se esgotar e, ao que parece, após as mobilizações que até agora ninguém consegue explicar com propriedade pelo que foram motivas, a popularidade de Sérgio Cabral segue em queda livre. A Presidenta Dilma, segundo informações do portal Brasil 247, já começa a se afastar do governador e a candidatura de seu vice, Pezão, começa a dar sinais que vai enfrentar muitas dificuldades em 2014. A renúncia, já marcada desde antes das manifestações começarem, ao invés de uma jogada para a candidatura a deputado do seu filho e para dar a Pezão a chance de construir seu nome para disputar as próximas eleições, é cada vez mais esperada só que seu impacto é difícil de ser previsto.

Diante de toda essa conjuntura é necessário um profundo debate sobre o que será o Pós-Cabral. O que será do Rio de Janeiro quando este renunciar? Pezão irá assumir e tentará se mostrar como o novo? As mobilizações cessam e uma nova conjuntura se abre com eleições em aberto para o ano que vem? Garotinho e Lindbergh saem fortalecidos disso ou Pezão pode ser um novo Itamar Franco e, com um ano de governo, conseguir sair de um governo rechaçado pela população com uma popularidade em alta tornando sua candidatura forte?

Esperamos que não! Esperamos que as ruas compreendam que Fora Cabral é pouco. É necessário dar um fim nesse ciclo político que mistura traços de um neoliberalismo mal formulado com um coronelismo anacrônico. É preciso dar um fim em governos que mantenham relações promíscuas com o privado, que tenham pouco respeito pela coisa pública. É preciso abrir um novo ciclo no Rio de Janeiro e para isso não basta gritar Fora Cabral, tem que se derrotar todo esse modelo político que se enraíza no nosso estado desde Marcelo Alencar (PSDB) e que tem em Cabral, Pezão, Paes e no PMDB como um todo seu maior expoente.

É preciso sim, derrotar Cabral, mas não apenas forçando uma melancólica renúncia, mas dando um tiro de morte no modelo de política por ele representado. É hora de derrotar Cabral, mas não apenas nas ruas. O povo fluminense tem que aproveitar esse engajamento político coletivo e derrotar Cabral, Paes e o PMDB nas ruas e nas urnas em 2014.

Com Partidos, ato pacífico reúne 10 mil no centro do Rio de Janeiro

Mais uma vez o centro do Rio de Janeiro foi tomado por manifestantes. Com a presença de militantes dos mais diversos partidos (PT, PCdoB, PSTU, PSOL, dentre outros), dos movimentos sociais organizados (CTB, UNE, UBES, CUT, MST, etc) e de vários militantes independentes, o ato reuniu cerca de 10 mil pessoas que fecharam a avenida Rio Branco com a pauta de liberdade para os presos nas últimas manifestações, pela desmilitarização da polícia militar e tarifa zero no transporte público.

Manifestantes fecham a Avenida Rio Branco durante protesto. (Foto: Bruno Bou Haya Ribeiro)

Manifestantes fecham a Avenida Rio Branco durante protesto.  (Foto: Bruno Bou Haya Ribeiro)

Os manifestantes fecharam a Avenida Rio Branco, seguindo por ela até a Cinelândia. Ao chegarem na praça que fora palco de grandes manifestações, o protesto seguiu para a sede da Fetranspor (Rua da Assembléia), contornando pela Rua Araújo Porto Alegre, passando pela Assembléia Legislativa e seguindo pela Rua da Assembléia para depois voltar para a Cinelândia.

Entre os gritos dos manifestantes se destacavam palavras de ordem como “o povo não é bobo, abaixo a rede globo” e “a verdade é dura, a rede globo apoiou a ditadura” se alternavam com hostilidades ao governador Sérgio Cabral (PMDB) e exigências de tarifa zero no transporte público.

A polícia militar, presente em grande contingente, acompanhou a manifestação fazendo um cordão pelas calçadas na lateral da mesma. No começo da passeata, PMs distribuíram panfletos pregando a paz e, mesmo com alguns ruídos de comunicação sobre como seguiria a manifestação da Cinelândia até a Fetranspor, não ocorreu nenhum ato de violência.

Os manifestantes encerraram o ato na Cinelândia por volta das 22 horas. O próximo ato puxado pelo Fórum de Lutas está marcado para domingo, dia da final da Copa das Confederações, às 15 horas, partindo da Praça Saens Peña em direção ao Maracanã.

Em Brasília, UNE e UBES fazem ato pelos Royalties para educação e contra as Opressões

Não foi só no Rio de Janeiro que houveram manifestações. Diversas outras cidades também tiveram atos. Em Salvador (BA), mais de 2 mil manifestantes fizeram um ato que seguiu sem maiores problemas até a sede da prefeitura local. Os líderes do movimento pretendiam entregar uma carta com 21 itens ao prefeito ACM Neto (DEM), mas quem a recebeu foi o secretário Municipal dos Transportes José Carlos Aleluia, que foi vaiado pelos manifestantes. Os pedidos vão desde o passe livre para estudantes até “a alteração do nome do Aeroporto Internacional de Salvador, hoje ‘Deputado Luís Eduardo Magalhães’, para o seu antigo nome: ‘2 de julho’, data magna dos baianos”. Após o fim do ato na Prefeitura de Salvador, houve confronto entre policiais e manifestantes nas proximidades da Estação da Lapa, principal terminal de ônibus da capital.

Em Fortaleza (CE), 84 pessoas foram presas após manifestações nas imediações do estádio Castelão, onde ocorria o confronto entre Espanha e Itália pela Copa das Confederações. Cerca de 5 mil pessoas participaram da manifestação na capital cearense e 7 pessoas ficaram feridas. Em Maceió (AL), o presidente e do vice-presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas estão reunidos com uma comissão de 20 pessoas que participam de um protesto pacífico contra a corrupção no governo do estado e na Assembleia Legislativa. Os manifestantes também exigem que a Justiça proíba o reajuste da tarifa de ônibus de R$ 2,30 para R$ 2,85 previsto para o dia 2 de julho. Eles saíram em passeata da Praça Centenária, no centro da cidade, passaram pelo palácio do governo e seguem em direção ao Tribunal de Justiça.

Presidentas da UNE e da UBES dão selinho em protesto contra a Cura Gay. (Foto: União Nacional dos Estudantes)

Presidentas da UNE e da UBES dão selinho em protesto contra a Cura Gay.

Na capital federal, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) organizaram uma manifestação com mais de 10 mil estudantes que tomou as ruas de Brasília exigindo rapidez na aprovação do Plano Nacional de Educação (PNE) com a garantia de 10% do PIB do país investidos em educação pública. Os estudantes pressionaram também os parlamentares para que o projeto que destina os royalties do petróleo e 50% de todo o fundo social do Pré-sal para a educação, aprovado na madrugada do dia 26/06 na Câmara, não sofra retrocessos. A marcha terminou com  um selinho entre a Presidenta da UNE Virgínia Barros, e a presidenta da UBES, Manuela Braga, em protesto contra o projeto da “cura gay”, pela liberdade sexual e em defesa de um Estado laico.

Um resumo das primeiras conquistas das ruas

Uma intensa agenda política tomou conta do Brasil nos últimos dias após as manifestações que tomaram conta de todos os cantos do país. Executivo, Legislativo e Judiciário começaram a tomar uma série de medidas para, como disse a Presidenta em pronunciamento em rede nacional, atender às vozes que vem das ruas.

Manifestantes no Leblon contra e PEC 37 (Foto: Bruno Bou Haya Ribeiro)

Manifestantes no Leblon contra e PEC 37 (Foto: Bruno Bou Haya Ribeiro)

A primeira grande vitória que veio das ruas foi a rejeição da PEC 37. Apelidada de PEC da Impunidade pela mídia, que a colocou como centro dos protestos mesmo sem esta bandeira ter sido aprovada nos fóruns democráticos que puxaram os mesmos, a PEC 37 era defendida por ninguém menos que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Para alguns ela representa o cerceamento do poder de investigação do Ministério Público, para outros ela garantiria a imparcialidade na fase de investigação dos processos na qual a Polícia Judiciária (Civil e Federal) investiga, o Ministério Público denuncia, a Advocacia faz a defesa e o Judiciário julga. Para estes, a PEC 37 asseguraria o contraditório e a ampla defesa, já que a investigação seria feita por órgão distinto do que faz a acusação. Em suma, ainda havia muito debate a ser feito sobre o tema e no calor das emoções o projeto acabou sendo rejeitado e arquivado. Vitória das ruas? Sim, mas com grande força da imprensa e das forças conservadoras que pautaram essa demanda por fora dos fóruns democráticos e conseguiram impor essa agenda.

Outra grande vitória, essa sim vinda dos debates dos fóruns democráticos, foi a aprovação da destinação de 75% dos Royalties do Petróleo para a educação e 25% para a saúde. A proposta original, feita pela União Nacional dos Estudantes (UNE) destinava a totalidade dos Royalties para a educação e era apoiada pela Presidenta Dilma Rousseff (PT). Também foi aprovada, nessa mesma proposta, a emenda da UNE que garante o investimento de 50% do fundo social do Pré-Sal para a educação. Essa é uma medida importante, que ainda precisa ser apreciada pelo Senado, pois não apenas destina mais verbas na área, mas obriga prefeitos e governadores (responsáveis pela educação básica e média) a necessariamente investirem os recursos oriundos do petróleo na educação e na saúde. Uma vitória das Ruas que, para ser consolidada, necessita ser aprovada no Senado e sancionada pela Presidência da República.

Voltando ao eixo de Reforma Política e Combate à Corrupção, o Senado aprovou o projeto que transforma a corrupção em crime hediondo. Com a mudança, os condenados por corrupção perdem direito a anistia, indulto e pagamento de fiança para deixarem a prisão –e também terão mais dificuldades para conquistarem liberdade condicional e progressão da pena. Os homicídios comuns também passam a ser crimes hediondos, segundo o projeto. Os qualificados já são enquadrados pela legislação em vigor como hediondos. A inclusão do crime ocorreu a pedido do senador José Sarney (PMDB-AP), que apresentou emenda ao texto original.

Congresso Nacional tomado por manifestantes em um dos atos em Brasília.

Congresso Nacional tomado por manifestantes em um dos atos em Brasília.

Ainda no pacote de medidas para atender à demanda gerada pelas manifestações populares, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), acertou na reunião de líderes que levará para votação direta no plenário, na semana que vem, dois projetos de clamor popular. Um para ser derrotado, o “cura gay”, e outro para ser aprovado, a “PEC do Voto Aberto” – que acaba com o voto secreto nos processos de cassação de mandato. Os dois tramitam na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e o segundo já foi aprovado pela mesma em votação simbólica na última quarta-feira (26).

Na saúde, a boa notícia é que a bancada do PT decidiu apoiar o projeto de taxação das grandes fortunas que, de acordo com a Deputada Comunista Jandira Feghali (PCdoB-RJ), após aprovado, vai gerar mais de R$ 10 bilhões para a saúde pública do País.

Em suma, o Legislativo atua com velocidade ímpar após as manifestações. Diversas mediadas buscando não apenas atender à demanda das vozes das ruas, mas tentando também recuperar a legitimidade da casa do povo estão sendo tomadas. Algumas, como o caso da PEC 37, acabam sendo aprovadas sem um real debate sobre o tema com a sociedade, outras como as propostas da UNE com relação à educação conseguem ser aprovadas graças ao clamor da população. Fica a lição de que, sim, o povo pode conseguir grandes vitórias se for às ruas. A luta está só começando e fazer com que não seja realmente apenas por 20 centavos exige muita mobilização, muito debate, muito foco nas propostas e da força da unidade do povo brasileiro.

Menos “V de Vingança” e mais “Clube da Luta”

Multidão protesta nas ruas, alguns com máscara de Guy Fawkes. Em destaque, ao centro, o monumento a Zumbi dos Palmares.

Multidão protesta nas ruas, alguns com máscara de Guy Fawkes. Em destaque, ao centro, o monumento a Zumbi dos Palmares.

O povo tomou as ruas. Talvez seja forte demais usar o termo “o povo” para uma manifestação que aglutina em sua ampla maioria setores da classe média, mas o fato é que o Brasil viveu um grande clima de mobilização como há tempo não se via. No começo, como todo ano acontece, com grupos pequenos indo às ruas contra o aumento das passagens. E, de repente, sem que nenhum cientista social, político ou afim possa afirmar precisamente como, milhares de pessoas tomaram as ruas das principais capitais brasileiras.

Saúde, Educação, Mobilidade Urbana e o repúdio às privatizações (como a do Maracanã) são alguns dos gritos que ecoam de uma multidão que não sabe bem o porquê está nas ruas e só se unifica realmente em uma única bandeira: a busca por um País melhor. Uma luta louvável. Uma luta que gerou um clima que a esquerda sempre sonhou onde as pessoas buscam o debate político. Uma luta, no entanto, que se simbolizou em dado momento em uma máscara. Um grito nacionalista escondido atrás de uma máscara britânica. Uma máscara que escondia vozes que gritavam à não-política como solução para os problemas políticos. Uma máscara que esconde um rosto que tem um objetivo que não é claro para maioria. Uma máscara de Guy Fawkes, banhada na cultura britânica e na indústria hollywoodiana, empunhada como símbolo nacionalista de um país que tem figuras históricas como Zumbi dos Palmares, Lampião, Garibaldi, Antônio Conselheiro, Lamarca, Marighela, dentre tantos.

Os “Anonymous” se escondem atrás de uma máscara, fazem um discurso perigoso de negação à política e aos partidos. Aproveitam da legítima mobilização popular para tentar dar a ela um rumo à direita, negando direitos como a livre manifestação político e ideológica conquistada à custa de muito sangue na ditadura militar. Nega os partidos de esquerda, pois sabem que estes nunca saíram das ruas, que estavam na luta não apenas contra o aumento das passagens, mas estavam levando porrada da polícia de Cabral na UERJ lutando por uma melhor educação, pois estavam levando tiros da polícia de Alckmin na manifestação dos professores, pois estavam com as centrais sindicais em uma marcha que reuniu mais de 50 mil em Brasília por mais direitos aos trabalhadores que sequer foi noticiada pela grande mídia. Enquanto os “Anonymous” se escondiam (ou dormiam!) a esquerda já estava na luta lutando pelas mesmas bandeiras que motivam o povo brasileiro hoje: mais direitos e melhores serviços públicos!

Mas se para acordar, os “anonymous” precisaram ver um filme estrangeiro, nos damos ao direito de lhes indicar um outro filme com um teor político muito interessante. Trata-se de Clube da Luta, um filme que a primeira vista pode ser visto como mais um padrão americano de exportação cinematográfica, mas que em dados momentos nos lança um debate interessante. No filme, uma das personalidades do personagem principal, monta um grupo que tem como principal alvo dos seus ataques o sistema financeiro. De acordo com as ideias expressas no filme, a libertação do povo só se dará quando da queda das grandes corporações do sistema financeiro. Sem bancos, sem fortunas, sem dívidas. Todos iguais recomeçando do zero e construindo uma nova sociedade.

Manifestante com máscara dos "anonymous" admira bandeira do Brasil na sede da FIESP.

Manifestante com máscara dos “anonymous” em contraste com a bandeira do Brasil exposta na sede da FIESP, na Avenida Paulista (SP).

Todos nós queremos mais saúde e educação mas não há como construir uma sociedade com mais saúde, mais direitos, mais educação, melhores serviços públicos e sem corrupção nos marcos do capitalismo. Não há como construir essa sociedade com base na exploração do homem pelo homem e na acumulação de lucro em detrimento da distribuição da riqueza. Não há como falar em mais direitos em um sistema que sobrevive na base da opressão e da exploração da maioria da população em detrimento das grandes fortunas.

Queremos mais saúde? Então vamos taxar as grandes fortunas como propõe o projeto da Deputada Comunista Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Segundo o Institudo de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), famílias com renda de até dois salários mínimos gastam 49% da renda com tributos; as com renda superior a 30 mínimos, com maior capacidade econômica e patrimônio muito superior, pagam quase metade, 26%. Porque não invertemos essa pirâmide? A taxação de 997 milionários geraria mais de R$ 10 bilhões para a saúde e, para que essa taxação avance vamos ter que enfrentar o capital financeiro, que nada produz e é quem mais lucra nesse País.

Queremos mais educação? Vamos pressionar o legislativo por 100% dos Royalties do Petróleo para a Educação (proposta da União Nacional dos Estudantes – UNE), obrigando assim desde o prefeito até o Presidente invistam o fruto dessa riqueza na construção das gerações futuras com uma educação pública, gratuita e de qualidade! Vamos lutar pela ampliação do PROUNI nas universidades privadas e pela aprovação do relatório da CPI das Universidades Privadas da ALERJ (que é fruto de mobilização da União Estadual dos Estudantes do Rio de Janeiro – UEE-RJ) para garantir assim que estas instituições cumpram seu papel social com a concessão de bolsas para alunos oriundos das escolas públicas e com a garantia do tripé ensino-pesquisa-extensão! Vamos lutar por mais escolas técnicas, melhores salários e condições de trabalhos aos professores. E, para que todas essas lógicas sejam rompidas precisaremos enfrentar a lógica do capital financeiro.

Então, uma proposta, que tal tirar as máscaras, deixar de ser um “anonymous”, botar a cara com menos “V de Vingança” e mais “Clube da Luta” para focarmos no inimigo correto e começarmos a avançar em direção a construir o Brasil dos nossos sonhos? Vamos mostrar ao Brasil a cara do seu povo e lutar pela construção de um País mais justo e igualitário? Vamos enfrentar os banqueiros e empresários que lucram milhões e ainda colocam o prédio da FIESP para brilhar a bandeira do Brasil durante a manifestação como se não tivesse nada a ver com eles? Vamos para as ruas, companheiros e camaradas. Mas vamos com nossas bandeiras nas mãos, nossas ideias prontas para o debate e vamos aproveitar esse momento ímpar da nossa história para impulsionar nosso país para o rumo de mais direitos, melhores serviços e mais democracia! Vamos todos juntos, unidos, nas redes e nas ruas, mostrando a cara, lutando pelo Brasil dos nossos sonhos!